Aikido de superfície, Aikido de coração

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Confira o texto Aikido de superfície, Aikido de coração

por Christian Rocha

Um dos aspectos mais importantes do Aikido é ao mesmo tempo um dos menos discutidos e pronunciados. Suas implicações são sérias e ocorrem em várias esferas do treinamento, desde a mais técnica à mais teórica.

Refiro-me ao princípio da cooperação. Cooperar não significa apenas não-competir. Dizer que o Aikido não é competitivo diz algo a respeito da arte, mas ainda é muito pouco diante daquilo que Morihei Ueshiba propunha com seus ensinamentos. Por isso é importante dizer com todas as letras: o Aikido é uma arte marcial cooperativa. Isto significa muito mais do que não competir; significa ajudar, unir-se ao parceiro de treino e trocar dúvidas e experiências.

A confusão nasce quando nos deparamos com as exigências marciais do treinamento. Aikido é arte marcial. Como conciliar a marcialidade com a cooperação? Quando a discussão chega a este ponto — e ela invariavelmente esbarra neste ponto polêmico –, a maioria dos mestres menciona duas palavras importantes para todo treinamento marcial: sinceridade e respeito. A sinceridade pressupõe ataques verdadeiros e defesas verdadeiras, coisas que conduzem a um treino verdadeiro, em que ambos — uke e nague — colocam atenção e energia integrais ao exercitar uma técnica. O respeito significa que para tudo há um limite, que embora sincero, o ataque não visa o mal (nas intenções e nos métodos). Na prática, isto significa que os ataques são treinados com o máximo de realidade possível e ao mesmo tempo respeitam a ação do nague tão logo sua eficiência se mostre. Em outras palavras, quando uke sente que a ligação aconteceu (isto é, que a técnica começou a acontecer eficientemente), este não recorre a outras formas de ataque.

Soa grotesco, mas numa situação de violência total o oponente poderia recorrer, por exemplo, a puxões de cabelo, cuspes, mordeduras e beliscões. No Aikido não se treinam defesas contra tais ataques. Isto significa que o reigi representa (ou melhor, rege) a elegância com que a arte será desenvolvida. Muitos mestres falam que um bom aikidoka é aquele que executa as técnicas com eficiência e elegância — o que vale também para o uke, que assim é impedido de atacar de formas pouco nobres.

A cooperação não é consequência do respeito, da sinceridade, da eficiência e da elegância, mas, ao contrário, é a cooperação que determina tais virtudes. O bom aikidoka é aquele que sabe interagir: fazer Aiki, como dizem os mestres, ou cooperar.

A questão, a partir daqui, seria a seguinte. A cooperação pode ser praticada como um procedimento técnico, como um modus operandi. Pode, em outras palavras, permanecer na superfície do aikidoka. O treino pode acontecer adequadamente, até com harmonia, elegância e gentileza de ambos os lados. Contudo, que valor há nisso se o aikidoka não interiorizou o princípio da cooperação?

Isso remete às palavras de Jesus:

O que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. (Mt 15, 18-19)

Ou ainda:

Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. (Mt 23, 28)

É assustadoramente comum aikidokas — mesmo os mais experientes — treinarem em clima de amistosa interação, mas, ao mesmo tempo, não se suportarem pessoalmente. Às vezes basta o treino terminar para reinar uma estranheza incômoda, como se as pessoas não tivessem treinado juntas minutos atrás. A cooperação, neste caso, é epidérmica e cínica. Ela acontece tão-somente por uma conveniência do treinamento, não por uma honesta disposição de cooperar, e não chega a modificar o caráter do aikidoka.

A principal contribuição de Jesus foi justamente essa: interiorizar a lei, tornar seu cumprimento uma disposição inevitável do caráter. Aquele que cumpre a lei, mas não a interioriza, isto é, aquele que peca em pensamento já pecou. Traduzido para a linguagem marcial: aquele que pratica a cooperação com a mente e o espírito competitivos não está sendo verdadeiramente cooperativo.

Minha dúvida — eis o que me moveu a escrever estas linhas — é: o que poderia facilitar a interiorização desse princípio, o que poderia facilitar sua absorção pela mente e pelo espírito?

Não me parece um tema sem importância. Alguns dirão que mesmo a prática cínica pode conduzir o aikidoka à interiorização do princípio da cooperação. De um modo geral, é o que acontece com as técnicas do Aikido: o aluno as treina, ainda que sem consciência do que faz, de como o corpo se move. Ele apenas repete as técnicas sem preocupações em relação ao funcionamento, ao método, aos fundamentos e objetivos daquela prática. Ele apenas sabe que aquilo é correto e/ou bom e o realiza. Com a prática vem a compreensão. Entramos pela forma e saímos através dela. Na prática das técnicas do Aikido isto é bastante comum.

Na absorção dos fundamentos e conceitos do Aikido, as coisas acontecem de outra forma. Muitos conceitos não têm forma definida e por isso não podem ser totalmente transmitidos sem o auxílio da comunicação verbal e da razão. Pode-se, como disse antes, encontrar um aluno avançado de Aikido ainda impregnado de competitividade, aprisionado a léguas de distância dos princípios mais elementares da arte. Onde está a causa disso: nos alunos que avançam desta forma, nos instrutores que permitem tal avanço, na metodologia da arte ou na própria arte? O que permite o surgimento de aikidokas vazios de espírito, distantes do espírito de cooperação e de união tão pronunciado por O-Sensei?

Na tradição cristã, foi necessário o surgimento de um avatar que falasse objetivamente da importância da interiorização das leis. Com Jesus, os Dez Mandamentos saíram das tábuas sagradas e alojaram-se na alma dos homens. Não de todos, nem da maioria, evidentemente.

No budô, foi necessário o surgimento de um grão-mestre disposto a ressuscitar a espiritualidade nas artes marciais. O Aikido é fruto desse esforço de unir efetivamente a tradição das artes marciais à espiritualidade oriental. Neste sentido, é emblemática a decisão de O-Sensei de se retirar para Iwama, em 1942, onde o Aikido obteve a forma com que foi divulgado pelo mundo, resultante de uma soma harmônica entre técnica, espírito e razão. O problema é que em muitos dojos isso raramente é dito, ou, quando é dito, raramente é compreendido de modo a superar o espírito competitivo do ser humano. Sabe-se que o espírito humano é campo fértil para todo tipo de disputas. Se não existe um esforço no sentido de promover o desenvolvimento do espírito cooperativo, o espírito competitivo não apenas prevalecerá, como continuará crescendo ao ponto de prejudicar o treinamento marcial.

Como o próprio Aikido demonstra, grande energia despendida para modificar o espírito competitivo criará um esforço de reação, em sentido oposto e de igual intensidade. O que proponho — se é que este escrito pretende ser uma proposta — é bastante simples: que palavras sejam ditas sobre o espírito cooperativo, que se diga que a cooperação está dentro do espírito de Aiki e que o treinamento cooperativo é uma das formas, talvez a principal, de se praticar o amor e a paz, pedras fundamentais da arte desenvolvida por mestre Ueshiba.

 

Christian Rocha (Shin Shin Toistsu Aikido)

Fonte: Aikido de superfície, Aikido de coração –  Shin Shin Toitsu Aikido – Ilha Bela

Rosemberg
Rosemberg

Sensei Rosemberg Sampaio Gândara Ferreira nasceu em 05 de dezembro de 1966 em Campinas-SP, é Tecnologo Têxtil formado pela FATEC, comerciante e terapeuta na área de shiatsu e reiki. Instrutor da Federação Brasileira de Aikido, é aluno do Sensei Severino Sales 6°Dan, e detentor do 4°Dan faixa-preta.

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